02 de Setembro de 2007
A liturgia deste domingo pode sugerir este percurso de aproximação do Monte Santo : Convite, Humildade, Banquete.

1.Agarrar a vida como um convite é muito mais do que um direito ou ser dono.Há toda uma maneira inesperada e feliz de estar que leva ao entusiasmo.

2.A humildade é o traje da resposta. Não é ser inútil ou desleixado. A humildade significa verdade e reconciliação. Estar bem dentro da pele.O caminho de Jesus foi o inverso do carreirismo : Da condição divina à condição humana, humilhando-se até à morte da cruz. Por isso, Deus O exaltou... Cf.Fil. 2,6-11.

3.Somos convidados a participar deste banquete que não tem fim. As iguarias servidas são a generosidade de Jesus, o Seu triunfo sobre tudo o que é da morte.Nesta reunião festiva não é servida a inveja ou outras ervas amargas.Limpos de todos os orgulhos e egoismos podemos alimentar-nos da graça e da paz.


Porque este é o caminho da Igreja, a Igreja faz a Eucristia e a Eucaristia faz a Igreja, aproximando-nos de "Deus,juiz do universo,dos espíritos dos justos que atingiram a perfeição e de Jesus, mediador da nova aliança".

Armindo Garcia

25 de Agosto de 2007
A cultura clássica usava a expressão ascese para o exercício dos que se preparavam para os jogos olímpicos como também para os que se treinavam na filosofia ou na virtude.

A epístola de hoje, Heb.12,5-7.11-13 ,fala em aceitar a correcção do Senhor."Nenhuma correcção,quando se recebe,é considerada como motivo de alegria,mas de tristeza.Mais tarde,porém,dá àqueles que assim foram exercitados um fruto de paz e de justiça"

Os antigos latinos diziam,se não tiveres um amigo que te corrija,paga a um inimigo.A que podemos acrescentar a afirmação de uma tribo americana : Se não aprendestes nada com uma doença não ficastes curado dela.

Não sei se aprendemos algo com a festa de Nossa Senhora da Boa Viagem deste ano.Parece-me que somos desafiados a ser corrigidos na verdade.A mentira não compensa.Alguns aprenderam em pequeninos que se apanha mais depressa um mentiroso que um coxo.O caminho fácil da mentira intoxica e provoca a auto-ilusão.Não dá "um fruto de paz e de justiça".
Armindo Garcia

17 de Agosto de 2007
Começamos hoje as festas de Nossa Senhora da Boa Viagem.Sente-se que a Ericeira como que celebra o seu aniversário colectivo.Tanta memória a lembrar uma história conjunta com o imenso mar a forçar recordações.Dele veio o sustento de muitas famílias.Nele ficaram sepultados muitos filhos da terra.Os sustos da pirataria ainda podem vir à memória,embora ela se possa transferir para terra.
As últimas horas têm sido assinaladas com o ruído de helicópteros à procura de um surfista desaparecido a que se juntou a presença da armada.O mar impõe o seu respeito nesta capital do surf.Lembrando a genial síntese de Fernando Pessoa : "Deus ao mar o perigo e o abismo deu
Mas nele espelhou o céu"

Na memória colectiva o mar recorda aventura,coragem,ir mais além e aquela invenção portuguesa de navegar à bolina - com ventos contrários.

Nossa Senhora da Boa Viagem nos ensine a navegar.Como o poeta João de Deus nos ajudou a sentir com o coração cheio de beleza nas festas de Nossa Senhora do Cabo :

    Vem a onda,sobrevém
    Nova onda e nada teme
    Quem te vê guinado o leme,
    Virgem Mãe.

    ...

    Navegando mas de pé
    Neste mar cavado embora,
    Vou na barca salvadora
    Que é a Fé.

Armindo Garcia

12 de Agosto de 2007
Experiência típica do verão é a ida às raízes.É tanto o movimento nas estradas, as idas à praia e para as serras que sugerem uma incessante procura em que o melhor parece estar mais à frente. 
Neste período do ano retomamos de algum modo uma cultura nómada. Sobressaiem as deslocações por motivos religiosos, onde as pessoas ganham o porte de peregrinos.

A epístola deste domingo (Hebreus 11,) apresenta-nos um exemplar de emigrante que deixando o seguro pelo inseguro, o certo pelo incerto, partiu do mais profundo da sua identidade - família, país, cultura ( Gen.12, ) - para a terra da promessa.

A epístola  aos Hebreus 11,diz que "A fé constitui a garantia dos bens que se esperam, e a prova de que existem as coisas que não se vêem.Pela fé,Abraão obedeceu,ao ser chamado por Deus, e partiu para um lugar que viria a receber como herança".

Abraão aparece como o homem das mil tendas, dos mil acampamentos à procura da cidade definitiva de que Deus é o arquitecto.

As férias podem ser um tempo de graça para aprender a olhar mais longe,sem o frenesim do calculismo e das aparências.A experiência da fé conota uma total confiança onde o medo é excluído.

Nesta semana profundamente mariana vamos aprender a caminhar com Santa Maria e que a festa de Nossa Senhora da Boa Viagem nos leve em paz com os critérios de Seu Filho que são os do Reino de Deus.
Armindo Garcia

05 de Agosto de 2007
O clássico livro de Henri Nouven,Crescer, Os três movimentos da vida espiritual,termina  com este difícil percurso,da ilusãoà oração.Não nos damos conta deste exigente movimento. Já Pascal lembrava esta nossa tendência para a distracção, no sentido de fugir ao que é importante.Muitas pessoas em nome da qualidade de vida perderam toda a qualidade de vida.Não são capazes de parar ou por vício ou tais são as obrigações.Daqui nascem as sensações de vazio,de fadiga,de ilusão.

A primeira leitura do livro de Coeleth 1,2;2,21-23 acentua a experiência da desilusão.O evangelho sublinha o que acumula para si em vez de se tornar rico aos olhos de Deus.

A  leitura da epístola Colossenses 3,1-5,9-11 deste domingo indica que o homem pode renovar-se,pode aperfeiçoar-se e o caminho pode ser uma espiral atraído pelas coisas do alto e afeiçoando-se a uma meta superior.Pode existir um homem novo que renova o mundo por onde passa porque passou a pôr ordem na sua própria vida.
Armindo Garcia

29 de Julho de 2007
A primeira leitura deste domingo, Gen. 18,20-32, prepara-nos para o ensinamento do grande mestre da intercessão, Jesus.Luc.11,1-13.

Sodoma e Gomorra estavam numa decadência completa e Abraão diante do Senhor disse-Lhe"Ireis então aniquilar o justo com o pecador ?Talvez haja cinquenta justos na cidade. Pensareis realmente em exterminá-los ? Não perdoareis a essa terra, em atenção a cinquenta justos que nela residam ?" Com uma cortesia, hoje desconhecida, Abraão vai baixando até aos dez justos.

Para o Antigo Testamento, o justo era o santo, com uma vida diante de Deus , era uma benção para os outros.A cidade para ser cidade precisa de muitos empreendimentos,mas sobretudo de justos que a habitem e a limpem de todas as corrupções e decadências.

Jesus na oração do Pai Nosso dá-nos mais horizontes  ou referências porque nos situa nas autênticas coordenadas.Em simbologia moderna,um verdadeiro G.P.S. para o nosso trajecto temporal que é simultaneamente um compromisso.Chamar a Deus nosso Pai,procurar o reino de Deus e a sua justiça, querer o que Deus quer,trabalhar para que o milagre do pão chegue para todos e a generosidade do perdão renove a vida são princípios constitucionais mais simples,mais eficazes e com garantido futuro.

A Ericeira não é só azul mas luminosa quando logo de manhã encontramos no passeio ao longo da costa pessoas rezando para que a misericórdia de Deus construa a vila feita de gente digna e pacífica.
Armindo Garcia

22 de Julho de 2007
Diversas abordagens têm sido feitas deste passo do evangelho. Desde o equilíbrio entre acção e contemplação, representado por estas duas irmãs atè à exigência de que para o serviço do Reino nunca se perca a presença do Rei. A construção do Reino exige fatigantes actividades, mas se não for o Senhor a construir, é vão o trabalho dos construtores.

Estas duas irmãs representam sem dúvida a fina hospitalidade antiga do oriente: receber bem o convidado com o cerimonial de imensos pratos e dar atenção à pessoa recebida. Para Jesus, Maria escolheu a melhor parte.

A ciência política avançada tem sublinhado a importância da hospitalidade, dada a inoperância da democracia cada vez mais amarrada a jogos de interesses egoistas. Passar da hostilidade à hospitalidade é um sábio movimento de vida espiritual cheio de consistência social e promissor de paz. Devíamos parar para pensar, para o discernimento, para rezar. A alienação do fazer, do falar e do ter podem tirar-nos o gosto, pela fadiga, de redescobrir o outro como um irmão. Cheios de crises de becos, que nos obrigam a regredir para ver se encontramos o caminho certo talvez pudéssemos estar abertos ao que verdadeiramente  tem futuro e não cair em novas ilusões. Fazer do estrangeiro e do estranho um próximo e um amigo
é caminho para a segurança,para a amizade,para a felicidade,para a paz.
 
Marta lembra-nos que a azáfama não é a lei suprema da vida. Maria sugere-nos que "não é o muito fazer que sacia a alma mas o sentir e saborear as coisas interiormente"Cf. Santo Inácio de Loyola. Hoje a vida de muita gente é pobre de sentido (como direcção e interioridade)  de acolhimento e diálogo. Muitos estão impróprios e nem sabem o que perdem.
Armindo Garcia

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